De onde eu vim e para onde eu vou

Um destes dias deu-me para folhear álbuns de fotografia da infância. Foi agora aos quarenta que reparei pela primeira vez em como fui um dia uma mini Florbela Espanca. Em quase todas as fotografias tinha um olhar triste e quieto. Talvez porque ainda não compreendia nada da vida, era a mais velha de quatro irmãos e ao mesmo tempo que percepcionava as nossas dificuldades como família, não percebia ainda que a nossa sorte grande estava naquela mãe valente como uma leoa, a valer tanto ou mais do que muitas mães e pais juntos.
Nunca fui uma miúda gira nem popular. Não fui uma boa irmã nem uma boa filha e isso hoje cá para mim sozinha com os meus botões, magoa-me especialmente porque sei que poderia ter estado mais ao lado de cada um deles numa época em que certamente lhes fiz muita falta, e já não posso voltar atrás. Fui boa aluna, fui boa amiga de duas ou três meninas sempre muito diferentes de mim.
Foram tempos difíceis, mas foi com a ajuda dela, a minha mãe, que eu cheguei aqui. Fiz a minha licenciatura, trabalhei oito anos numa organização internacional. Tirei o meu tempo sabático. Vivi oito anos numa ilha. Atirei duas vezes a manta ao ar. Pós graduei-me. Recuperei um amor com quinze anos de interrupção; vou ser mãe. Sou feliz com o que faço e tenho planos para o futuro. Olho para os meus sobrinhos lindos e espertos e sei e sinto, que apesar das dificuldades do passado, finalmente como família e como pessoas, chegamos a um lugar melhor.
(...)

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